Federico Mora: o pior hospital psiquiátrico do mundo

Um hospital psiquiátrico na Guatemala foi descrito por ativistas como a instituição médica mais perigosa do mundo. Ex-pacientes dizem que eles foram abusados sexualmente enquanto sedados, e o próprio diretor admite que seus pacientes ainda são abusados.

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Hospital Nacional de Saúde Mental Carlos Federico Mora, situado na Guatemala.
Fundado a partir da fusão com o Hospital Neuropsiquiátrico em 1983, tornando-se um único hospital de referência para tratamentos psiquiátricos.

O hospital é de grande porte, contando com mais de 900 leitos para internação e setores destinados a reabilitação psiquiátrica.

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O Hospital de Saúde Mental é um centro hospitalar de referência nacional onde pacientes com doença mental são tratados e reabilitados, buscando sua reinserção na sociedade guatemalteca, através dos princípios do cuidado humano, qualidade, participação comunitária. Com transparência e produtividade articuladas através do Plano Estratégico Nacional de Saúde Mental.

Segundo Ministério da Saúde da Guatemala.

Denúncia da BBC

Mas como nem tudo o que parece é, em dezembro de 2014 a BBC fez uma denúncia acusando o hospital de cometer crimes pesados em relação aos pacientes.

Andar em uma das alas é como entrar em um inferno. Aqui, mais pacientes em trapos sentados no chão e em cadeiras de plástico, balançando-se em busca de conforto.

Descreve um dos jornalistas que participou da matéria.

O Hospital Federico Mora tinha cerca de 340 pacientes na época, incluindo 50 criminosos violentos e com problemas mentais. Mas, segundo o diretor do hospital, Romeo Minera, apenas uma minoria tem problemas graves – impressionantes 74% chegaram precisando apenas de um pouco de atenção e cuidados e deveriam ter ficado na comunidade.

Na época da denúncia, os jornalistas se passaram por uma equipe de caridade que tinha o objetivo de arrecadar fundos para a instituição. Segundo Minera “jornalistas não eram bem vindos”. O disfarce foi a única maneira de trazer as atrocidades à tona.

Relatos

Por todo o lado, corpos imóveis deitados no chão de concreto do pátio sob o sol ardente. Os pacientes parecem estar altamente sedados. Os cabelos foram raspados e eles usam trapos como roupas e nada nos pés.

Outros estão totalmente nus, expondo a sujeira, causada às vezes pelas próprias fezes e urina. Eles se parecem mais com prisioneiros de campos de concentração do que com pacientes..

Relatos retirados na íntegra da matéria da BBC em 2014.

Um enfermeiro diz que dois ou três profissionais são responsáveis por 60 a 70 pacientes. Outros dizem que a única maneira de lidar com eles é sedando-os.

Os pacientes vêm até nós, desesperados por contato humano. Um homem me agarra e implora para que seja levado do hospital.

Enquanto meu tradutor distrai o diretor, eu ando pelos quartos localizados em um corredor longo e escuro. Aqui, há mais pacientes deitados em camas de metal quebradas e enferrujadas.

Eles parecem sedados demais para andar até o banheiro. Há poças de urina nos colchões, e as roupas de alguns dos pacientes estão coberta pelas próprias fezes. O mau cheiro domina o ambiente – e eu tento, com todas as forças, controlar a náusea.

Relatos retirados na íntegra da matéria da BBC em 2014.

Em resposta à investigação da BBC, o governo da Guatemala disse que o hospital “usa a menor dose de sedativos como recomendado pela Organização Mundial de Saúde” e defendeu as condições do hospital.

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“Há enfermeiros treinados para atender às necessidades dos pacientes, inclusive para mantê-los limpos e vestidos, e uma equipe de manutenção para manter o ambiente limpo”.

Abusos sexuais

Durante a filmagem secreta, o diretor faz uma confissão surpreendente – os guardas abusam sexualmente dos pacientes. O hospital, diz ele, é um lugar “onde tudo pode acontecer”.

Dois ex-pacientes contam terem sido estuprados no Federico Mora. Eles afirmam que os perpetradores também eram da equipe médica, além dos guardas.

Uma paciente diz que foi abusada sexualmente por um enfermeiro enquanto dormia. Ela tinha apenas 17 anos e era virgem.

Eu não estava ciente disso já que eu estava sedada. Só percebi que tinha perdido minha virgindade no dia seguinte. Eu sangrava pelas pernas, então descobri que o que tinha acontecido naquela noite é que um enfermeiro tinha entrado e me estuprado.

Conta a jovem em entrevista.

Este era o terceiro dia dela no hospital. Depois de duas semanas, seus gritos de socorro fizeram com que sua família a tirasse do local. “Você nunca se esquece de uma experiência como essa”, diz ela, entre lágrimas.

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Ricardo, outro ex-paciente, diz que foi estuprado durante os três anos que passou no Federico Mora. Ele só foi libertado depois de uma batalha judicial, alegando ter sido diagnosticado erroneamente com esquizofrenia.

Eles se aproveitavam das pacientes do sexo feminino, quando elas estavam sedadas”, diz Ricardo. “Os agentes da polícia, os pacientes e os enfermeiros – e alguns médicos também. Eles separavam as meninas mais bonitas para si durante à noite.

Conta Ricardo em entrevista.

Perigo generalizado

O grupo americano defensor dos direitos de deficientes Disability Rights International (DRI) passou três anos recolhendo provas sobre o Federico Mora.

Em um relatório publicado em 2012, o grupo descreveu o hospital como “a instalação mais perigosa que nossos investigadores já viram em qualquer lugar nas Américas”. O DRI disse que “qualquer pessoa com ou sem deficiência internada neste hospital enfrenta risco imediato para a vida, saúde e integridade pessoal, além de risco de tratamento desumano e degradante ou tortura”.

O relatório explica que pacientes tiveram cuidados médicos negados, foram expostos a doenças e infecções graves e contagiosas e, agravado pelo abuso sexual “generalizado”, estavam em risco de contrair HIV.

Numa visita, o grupo conseguiu filmar uma paciente explicando que ela havia sofrido abuso sexual em seu primeiro dia no hospital, enquanto estava amarrada em uma parede. “Eu também vi pacientes mantidos em isolamento. Havia um homem literalmente tentando escalar para sair de uma cela de isolamento. Ele estava em cima do muro tentando desesperadamente sair. E pessoas ficam presas nessas cela durante horas ou dias”, disse o fundador da DRI, Eric Rosenthal, que descreveu o local como o “mais terrível” já visitado por ele.

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Na minha visita ao hospital, vi um dos quartos de isolamento usados para pacientes violentos demais para serem contidos.

É um quarto de dois metros quadrados com uma pequena janela. Um homem estava encolhido no canto. O chão estava coberto de dejetos humanos.

O diretor me disse que esses quartos eram monitorados, mas admitiu que, recentemente, um paciente havia cometido suicídio ao subir até a janela e se enforcar.

Processo Judicial

O governo guatemalteco defendeu o uso destas celas, dizendo que “os pacientes são mantidos em isolamento durante apenas duas horas em cada ocasião” e são constantemente monitorados.

O governo também afirmou que ninguém estava sendo mantido em isolamento durante a nossa visita.

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O uso de salas de isolamento era parte das provas levadas pela DRI à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em 2012, que emitiu uma “medida de emergência” – efetivamente obrigando o governo a solucionar as questões levantadas pela DRI para “salvar vidas”.

A equipe do hospital teme represálias se conversar com a imprensa, mas seis funcionários aceitaram em falar na condição de serem entrevistados juntos e não serem identificados.

“Não temos os remédios que precisamos para tratar pacientes. É sujo, há ratos e baratas”.

“Acho que falo por todos ao dizer que os abusos cometidos no hospital por guardas são de conhecimento comum”.

“Não é perigoso só para os pacientes, mas para nós também. Já reclamamos, mas ninguém ouve. Trabalhar no hospital é horrível”.

Trechos da entrevista com os funcionários.

O governo da Guatemala disse à BBC que iniciou o processo de melhorar o sistema médico mental pelo país e que está construindo um muro para separar prisioneiros do resto dos pacientes.

E afirmou ainda que, apesar de não ter recebido nenhuma denúncia de abuso sexual, ordenou uma investigação interna.

Reportagem original BBC, onde as condições do local ficam explícitas.

2021, alguma coisa mudou?

Não existem novas informações sobre a investigação, e fica a dúvida se algo realmente mudou. Após a matéria da BBC parece que o governo quis se manter a margem e colocar panos quentes na real situação. No site oficial do Ministério da Saúde da Guatemala, é possível encontrar detalhes superficiais sobre o estabelecimento e pouquíssimas imagens que retratam só o exterior.

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Juliane Cunha

27 anos, trabalho na área da saúde. Adoro escrever e também adoro casos criminais, nada melhor que unir o útil ao agradável. Me segue no Instagram @julianesantt | @casocriminal_